terça-feira, 29 de maio de 2012

Ópera Kitsch no horário nobre


Por meio da reflexão chegamos a conclusões sobre nós mesmos. Passamos a entender nossos erros e nossos acertos. Entendemos nossa história. A reflexão sobre os papéis que ocupamos ao longo de nossas vidas é fundamental para que alcancemos o estado de graça necessário para o crescimento pessoal.

Isso não acontece apenas com pessoas. As instituições também precisam passar pelo processo de reflexão e reinvenção de si mesmas. O dinamismo das transformações do século XXI força-as ainda mais do que as pessoas, pois, usadas como exemplos hoje, podem cair em desuso amanhã. As instituições sofrem mais que as pessoas com os tempos em que vivemos.

Uma das instituições que mais sofreu com o novo século foi a novela. Outrora, o grande trunfo da TV brasileira, que movia as massas para a frente dos aparelhos todas as noites para acompanhar a vida de heróis e vilões, para desejar a riqueza de uns e se consternar com a pobreza dos outros, passou por maus bocados neste início de novo século. Encontrar uma voz para ser ecoada no meio da cacofonia comunicacional dos dias de hoje não foi fácil e aquela que era a vedete da TV brasileira teve que se contentar com um lugar sorrateiro no coração das suas mais fiéis telespectadoras: As donas de casa.

Porém, como disse no início deste texto, as instituições precisam refletir sobre qual seu papel no seio da sociedade em que estão representadas. Nos tempos de outrora, heroínas puras como a Escrava Isaura faziam sentido. No entanto, hoje, a pureza e a castidade não são mais requisitos tão valorizados. A independência da mulher chegou, e com ela, diversos novos valores e diversas interpretações de valores antigos que deixam de fazer sentido em uma nova sociedade.

Claro que a dona de casa ainda se alimenta daquele sonho lindo de ver a heroína castiça casando de vestido branco, véu e grinalda na igreja, com Mário Lago como padre (nos anos 80 e 90 só ele fazia padres na TV, era coisa de louco!) celebrante. Porém, as donas de casa não mandam mais no controle remoto. Suas filhas e, pasmem, seus filhos, tomaram as rédeas do mundo televisivo, e entre uma série americana e um documentário sobre o comportamento dos pescadores de focas do Alasca, eles podem querer ver algo que represente um pouco de sua realidade.

É aí que entra a nova novela brasileira.

E seu maior exemplo é a atual trama das 21h: Avenida Brasil, com seus personagens tirados do cotidiano brasileiro.

João Emanuel Carneiro com as estrelas de sua trama: O segredo é representar sentimentos reais para pessoas reais


O autor, João Emanuel Carneiro, é o criador da maior vilã de novelas do século XXI: Flora, de A Favorita, primeira experiência de exploração da vilania como expurgo para os sentimentos contidos no coração dos telespectadores. Na trama atual, ele apresenta a nova classe "C", e seus desafios. Além de criar uma vilã à altura de Flora: Carminha.

Na trama atual, acompanhamos Nina em uma luta por vingança. Carneiro explora sentimentos contidos no coração de cada um de nós, mas que temos medo de expressar. Raiva, dor, angústia, tristeza, vingança. Em explorar estes sentimentos, Carneiro tem o grande trunfo do novo século: a busca pelo realismo.

Somos humanos, dotados de emoções e sentimentos contraditórios. Tomamos decisões de mudança para, em seguida, continuar cometendo os mesmos erros. Falamos coisas para, no mesmo segundo, nos arrependermos. Pensamos coisas sujas, desejamos o mal, ansiamos pela derrota alheia como forma de purgar as nossas próprias. Somos vingativos.

Por outro lado, torcemos pelo outro. Queremos ve-lo tendo sucesso e alegria. Nos dedicamos, buscamos ser melhores, caímos e nos levantamos, enxergamos nossos erros e buscamos muda-los. Insistimos, amamos, nos ferimos, mas amamos de novo mesmo assim, para nos ferirmos mais uma vez. Desejamos, lutamos para conseguir, somos cheios de esperança.

João Emanuel Carneiro sabe explorar todas estas facetas em seus personagens. Como Manoel Carlos o faz tão bem com as classes mais altas, Carneiro o faz com as classes baixas. Ele mostra, em sua novela, ambientes em que podemos nos inserir. Nos apresenta personagens que já conhecemos. Olhamos para sua novela para nos vermos refletidos nos sonhos de um jovem jogador de futebol que quer crescer, ou vemos nossa vizinha representada pela periguete que quer encontrar a estabilidade. Queremos mais de suas novelas porque nos vemos nelas.

E tudo isso com um agravante: A novela assumindo-se como ela é: Kitsch, brega, cafona. Ironicamente, de dentro desta cafonice surge nossa humanidade brasileira. Das correntes de prata, dos cortes de cabelo de pagodeiro, das chapinhas e dos cordões de bijuteria, vemo-nos representados às 21h quando surge Tufão e sua turma e os sonhos que aspiramos para nós.

A Ópera de nossas vidas se representa na novela de João Emanuel Carneiro. Kitsch, sem perder o orgulho próprio.

Talento

Li uma crítica ontem sobre os textos de um escritor argentino. Gosto dos argentinos. São excelentes contistas. Desde Borges esta escola se dissemina entre nossos Hermanos.


No meio da crítica, uma frase interessante: "Com o livro nas mãos, eu fiz o que os escritores fazem quando se lembram de seus livros favoritos: olhei para o chão, senti uma dor terrível no peito que descia ao estômago e comecei a me deprimir e a me entregar ao abatimento porque o maldito Fogwill escreveu esses contos e não eu. Porca miséria."

Imagino que os arquitetos, os pintores, os atores, os autores de novelas, os compositores, todos os que lidam com a arte tenham este mesmo sentimento de inveja diante de uma obra prima. Aquilo que nos diminui, mas nos fortalece. Aquilo que confirma o talento do artista e conforma a falta de talento do arteiro.

O ofício de escritor é baseado no exercício prático de contar histórias. Como contadores de histórias, nossa meta é prender a atenção daquele que nos lê. Temos a pretensão de, assim, sermos o centro das atenções de um mundo que já não dá atenção a ninguém por mais de quinze segundos. Andy Warhol estava mais certo do que imaginava...

Escritores são anacrônicos. Somos mais que frases soltas no Facebook e muito mais que cento e quarenta toques no Twitter. No entanto, a simplificação de nossa excelência por meio da seleção de trechos curtos que podem caber no espaço de um suspiro e ser lidos no tempo de uma risada acaba por macular aquilo que temos de mais precioso.

Nosso talento.

Testemunhar a perfeição nos faz querer alcança-la por nós mesmos. Ler Borges, Stendhal, até o chato Hemingway, Proust, Lispector ou Melville, como estou fazendo, é nos diminuir e, ao mesmo tempo, nos fazer crescer. Vendo sua perfeição, elegância e eloquência, podemos nos inspirar.

A reprodução parcial destes textos, recortados e picotados para caberem no compartilhamento do Facebook não é aprazível para a própria arte. Alguns, que pensam que divulgam o trabalho do escritor fazendo isso, enganam-se. Não divulgam o trabalho do escritor. Ao contrário, deturpam-no.

O talento não pode ser concentrado em pílulas, mas consumido em largas doses. Seja em curtos contos, seja em longos romances.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Eu tenho um sonho

Hoje é aniversário da morte do reverendo Martin Luther King. Ele foi assassinado em 1968, um ano bastante agitado e que, segundo Zuenir Ventura, ainda não terminou.


Naqueles tempos de luta por direitos humanos e liberdades (que hoje gozamos e cujo valor não conhecemos), o reverendo King foi um dos nomes que mais se sobressaiu. Sua morte é um marco na luta pelos direitos de igualdade dos negros e de qualquer grupo social.


Lutar por direitos, hoje, é um expediente mal compreendido. Tanto por quem executa quanto por quem critica. As lutas sociais são causas nobres, mas, quando desvirtuadas de seu real significado, perdem seu valor e tornam-se motivo para piadas e chacotas.


Muitos lutam para que o sonho do reverendo King se torne realidade. Muitos participam nas linhas de frente das lutas sociais. Voluntários, enfermeiros, agentes de direitos humanos, blogueiros. Todos querem o direito de ser iguais, e, no entanto, ter suas diferenças respeitadas.


Quando eles respeitam o direito à livre expressão, eles têm o meu respeito. Em caso contrário, não. Não tenho como apoiar a luta de quem quer ter direitos iguais mas quer tolher o direito do outro de se expressar.


Estes são os hipócritas, que lutam por direitos para si, a preço da liberdade de expressão e de ação alheia. Creio que o reverendo King não ia gostar deste tipo de luta vazia.


Abaixo, a transcrição de seu mais conhecido discurso, proferido em 28 de agosto de 1963, na frente do Capitólio, em Washington. Em destaque, a frase que ecoa na mente de dez entre dez pessoas que lutam pelo direito de ter uma vida digna e justa, sem que isso custe a liberdade do outro.





"Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.


Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros.

Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre.

Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.

Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhosa condição.

De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com "fundos insuficientes".

Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo.

Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia.

Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.

Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar aos negócios de sempre.

Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente a nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.

E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, "Quando vocês estarão satisfeitos?"

Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.

Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de você vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Você são o veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de desespero.

Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo.

Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia.

Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.

Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar aos negócios de sempre.


Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livre. Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.

"Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.

Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,

De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!"

E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro.

E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.

Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas poderosas de Nova York.

Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.

Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.

Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.

Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.

Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.

Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.

Em todas as montanhas, ouviu o sino da liberdade.

E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro:

"Livre afinal, livre afinal.

Agradeço ao Deus Todo-Poderoso, nós somos livres afinal."

segunda-feira, 26 de março de 2012

Muito além do Professor Raimundo

Aos que estão acostumados a ver Chico Anysio alinhado a um tipo de humor que hoje é considerado pernóstico pela "elite pseudointelectualizada", o dos tipos, é bom que saibam que ele é muito mais do que isso.

Aliás, os mais de duzentos personagens criados pelo humorista cearense são apenas a ponta do iceberg da criatividade de um artista multifacetado. Alguém que não foi apenas feito para a TV, ou para o rádio, como inicialmente.

Chico era um escritor de contos no mínimo fantástico.

E eu leio Chico há um tempo considerável para saber do que estou falando.

Ele não era um escritor de humor. Chico não focava nesta direção. Ao contrário, como autor de contos ele queria nos fazer pensar na realidade do Rio de Janeiro, e, por consequência, do Brasil como um todo nos anos 60 e 70. Seus contos de "A Curva do Calombo", por exemplo, livro de 1974, são um achado neste sentido. 

Prostitutas, playboys, moças direitas e homossexuais enrustidos criam vida como se na mais rica história de Nelson Rodrigues, mas sem o moralismo do cronista d'A Vida Como Ela É.

Chico se deixa conduzir por dentro da hipocrisia dos ricos e da transparência dos pobres apresentando uma melancolia latente quando fala destes. Em outro de seus livros, "Feijoada no Copa", por exemplo, o conto que dá título à obra fala sobre isso. Dois ricaços enfadados da vida almoçam no Copacabana Palace. Reclamam da vida. Para eles não está fácil, entre seus talheres de prata e seus copos de cristal. No final, um deles joga o toco do cigarro Benson e Hedges na calçada. Um mendigo, molambo e maltrapilho pega o toco e sorri. "Que vida boa", agradece.


Chico faz o que faz sem julgar o rico ou o pobre. Sua escrita não é distante ou ausente, as histórias soam como que contadas na mesa do bar, reservando sempre uma surpreendente reviravolta final, como no conto "Tio Rogério", em que o pai sai de casa, deixando filho e esposa para trás, para começar a nova vida e, a partir deste momento, entra na vida do menino o "Tio Rogério" do título. O texto nos conduz a pensar uma coisa quando, na verdade, é outra que está acontecendo.
Com estas surpresas Chico nos desafia a repensar o cotidiano e o que as pessoas são capazes de fazer para tentar viver e ser felizes. Mais do que colocar uma maquiagem e simular uma voz, Chico conta histórias. Se são mentiras, Terta, eu não sei, mas que colocam para pensar, ah, isso colocam.

Em tempo: As ilustrações das capas dos livros de Chico que ilustram esta matéria são de Ziraldo que, muito além, do Menino Maluquinho, é criador de imagens geometricamente fortes e extremamente marcantes (além de ser um dos caras mais ciumentos que existem no mundo, segundo Zuenir Ventura).

quinta-feira, 1 de março de 2012

Someone like you? A lot, darling...

Adele e os seis filhotes, alimentados a muita dor de cotovelo
Meus parabéns à gordinha britânica Adele que faturou o Grammy deste ano e seis categorias. O prêmio é dado aos melhores artistas do ano, e quanto a isso não existe questionamento: Ela foi definitivamente a melhor do ano.

No entanto, a Adelefever que tem tomado os corações e mentes da juventude transviada que estava em busca de uma diva não me pega.

As letras que falam de amores perdidos e da tentativa de levantar-se e dar a volta por cima são um velho caminho trilhado por tantos artistas antes dela... Um velho caminho, sim, mas bem trilhado e agradável. Todos os grandes compositores já falaram da boa e velha dor de cotovelo. Ela nos faz crescer enquanto artistas e seres humanos. A dor, em geral, tem esta característica edificante.

Mas acredite, someone like her, tem diversas. Só de cabeça eu já penso em pelo menos três cantoras/compositoras/musicistas que estão no mesmo nível e até melhores que a jovem inglesa.

Posso começar com Norah Jones, que eu seu último trabalho, "Chasing Pirates", consegue transmitir uma emoção profunda e uma unidade criativa bastante edificante. Ando por fora do que Alicia Keys anda fazendo, mas ela é outro nome que posso dizer que sempre chamou a atenção, até porquê junta à aura standard um quê de R&B que é gostoso de ouvir e dançar. Sem contar Diane Birch, cujo timbre rouco e agudo e cujas letras poéticas e líricas fazem de "Bible Belt" um dos melhores discos da segunda década do século XXI.

Isso só para ficar nas cantoras/compositoras/musicistas que tocam piano e cantam com a rouquidão de uma alma quebrantada...

O problema não é a qualidade de Adele. Ela é ótima cantora, música com verve e paixão e compositora de dor de corno como poucas. O problema é que ela só consegue se destacar porque a música hoje está passando por um péssimo momento, quando falta qualidade, diversidade e identidade aos artistas.

Todos querem ser iguais a alguém que veio antes. Quantas Amys não estão surgindo aos quatro cantos? Quantos cantores de black music querem ser o novo Akon, ou coisa parecida? Se bem que Akon já deve ser o novo alguma outra coisa, que não sei...

A mesmice parou na música e ali ficou. Adele veio dar uma chacoalhadinha (de leve) nesta mesmice. No entanto, o risco de entornar o caldo é grande, já que uma das coisas que vai acontecer agora é o surgimento de várias Adelezinhas. E não é culpa dela, é um fato que as gravadoras vão querer fazer surgir novas cantoras com o mesmo perfil.

Será que as gravadoras terão coragem de lançar algo novo no mercado? Algo diferente? Difícil... Com as mudanças do mercado da música é mais fácil investir no igual, que você sabe que vai conseguir vender.

Mas ainda tem muita coisa boa surgindo no mundo alternativo. Basta uma vasculhada na Internet para você encontrar boas bandas. Até de muita coisa de dor de cotovelo, o assunto mais comum da música moderna. Vale a pena olhar em volta e sair da mesmice. Você vai encontrar alguém como ela, acredite. E até melhor, viu?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012



Pichemos em nossos corações.

A verdade pichada nas ruas de São Paulo, um grito preso na garganta, solto com toda a agressividade. O que é importante para o homem, o que é importante para viver?

Tudo o que precisamos é do amor, pichado em nossos corações, enchendo-nos da coragem para ir além do comum. O amor é importante, porra, protesta a cidade contra nós, esquecidos da mensagem, esquecidos do verdadeiro significado daquelas palavras.

O amor, tão esquecido durante tanto tempo, relegado a um lugar sem destaque em nossas prioridades, ainda nos grita por atenção. O amor é importante, porra! A cidade grita, e nossos corações ecoam seu suplício.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fôlego

Amar requer fôlego, e isso as pessoas não têm.

Não têm fôlego para suportar atravessar grandes adversidades em nome de um amor que considera o outro não a extensão de si mesmo, mas o outro, sim, o outro em si mesmo, uma pessoa diferente, independente.

A falta de ar se deve à superficialidade com que as pessoas tocam suas relações. Como se a vida fosse um rio e todos ficassem satisfeitos em boiar na superfície.

A vida está dentro do rio, mas é desconfortável e incômodo tentar encontrar o fundo. exige fôlego, exige olhar prá dentro, abrir os olhos quando a água é escura e descobrir que não dá pra saber o que está a nossa volta.

Amar exige fôlego para suportar a profundidade do rio do outro. Por mais que nossas cabeças estejam boiando, uma grande parte de nós ainda está dentro da água, oculta, esperando para ser descoberta. Esta parte de nós só pode ser explorada no mergulhar, e não na vista de cima. De cima da água tudo parece bonito, organizado e ordeiro.

É lá em baixo que o amor se prova. É na falta de ar, na sujeira do rio, na água barrenta e na dificuldade de voltar. É na possibilidade da morte que se prova a vida do amor.

Mas não podemos descobrir isso na superfície, onde o céu é azul e a água calma.

O problema é que quando a pedra bater nas costas, os despreparados vão ficar sem fôlego. Estes, que reclamam que amar é difícil, que viver é foda, que é mais fácil ficar sozinho, que o amor sempre machuca...

Sim, sempre machuca, mas é isso que acontece quando você desce um rio: as pedras, os gravetos presos, a escuridão da água, tudo o que está no fundo pode machucar, e a gente não sabe quando este ferimento virá.

Amar não é fácil. Se você acha que vai se ferir sempre, está certo. O que você precisa é explorar o fundo do rio da sua vida para saber o que tem lá que pode te machucar, e se proteger contra aquilo. Mesmo assim, a vida é um rio, e como todo rio, pode trazer novas pedras e novos gravetos do alto da colina.

Então, ao invés de gastar seu fôlego com futilidades e superficialidades falando do amor, vá viver o amor como ele deve ser, ferindo, duro, difícil. Mergulhe e fique sem fôlego. Deixe-se ferir e fira, e pare de reclamar das nuvens neste seu céu azul sem graça!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Começo ruim


Terminei de ler "O sol também se levanta", representação de Hemmingway sobre a "Geração Perdida", de homens e mulheres que viviam o pós 1a guerra. O autor podia ter sido mais feliz. Apesar da sutileza do texto e da riqueza dos personagens, todos bastante complexos, o livro não chega a um ápice. Ao contrário, ele é feito de anticlímax após anticlímax.

Hemmingway consegue passar a emoção (ou a falta dela) presente na geração que se seguiu à 1a guerra. Personagens cuja existência não tem qualquer significado perambulam semivivos por uma Paris que é festa sobre festa e depois por uma Pambplona que é a própria fiesta o tempo todo.

De festa em festa vemos a existência miserável dos meio ricos da Europa dos anos 20, suas bebedeiras homéricas e a falta de significado de suas existências. Se eles não tinham qualquer significado, porquê, afinal, contar suas histórias?

Foi um péssimo início de relacionamento, Hemmingway... espero que os próximos sejam melhores...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A eternidade do amor

Esta história do "Ou se ama para sempre ou nunca se amou" é besteira. Amor acaba, como qualquer outro sentimento. Crescemos, mudamos, evoluímos. Pensar que o amor é eterno por ser transforma em estático aquilo que o ser humano tem de mais dinâmico que é sua capacidade de se relacionar com o outro.

Amamos mais de uma vez na vida. E amamos de verdade. Aquele amor prá doer, prá deixar feliz. Podemos amar, também, uma vez só na vida, claro, e estes casos são muito comuns, e lindos exemplos de resiliência de um sentimento. Amor pode ser sequóia que alcança 1000 anos e pode ser laranjeira, que dura dez. Ou pode durar ainda menos, nunca se sabe.

Dizer que só se ama uma vez na vida é desvalorizar todos os outros relacionamentos que se viveu. Amamos errado, é da nossa natureza. Não sabemos fazer isso direito. Deus deixou umas instruções, e tal, mas cada um de nós é de um jeito, então, seguir todos a mesma cartilha é certeza de que perderemos nossas personalidades em detrimento de um modelo estático. Deus não quer isso. Quer que amemos errado, sim, para aprendermos o nosso jeito certo de amar.

Quem quiser amar certo vai se machucar ao longo da vida. Se fechar para o resto da humanidade dizendo que não poderá amar mais é perder tempo e maravilhosas experiências de vida, de derrotas, vitórias e amor. Muito amor.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Arkáditch e a inevitabilidade da vida

Passamos a vida esperando pelo inevitável. A sombra da morte nos ronda em todo o tempo, em tudo o que fazemos, em cada passo que damos. Tudo o que podemos fazer é caminhar em direção ao nosso fardo, esperando que, um dia, quando transpusermos a barreira do inefável, algo nos esteja esperando do outro lado.

O inevitável é o tema principal de Arkaditch, último livro de Waldemar J. Solha, paulista de Sorocaba radicado em João Pessoa. O livro conta a história de um dia na vida de uma família da classe média-alta da capital paraibana e de como o inevitável vai atingir, bem no meio do peito, cada um dos personagens, seja com a morte, seja com o amor. O inevitável vem, decerto.

O passado traz seu peso na história de Arkáditch. O personagem principal é um professor universitário e mega empresário na capital paraibana. abriga seu pai em casa e está recebendo sua filha mais velha de volta ao lar depois de uma longa estada em Madri.

Em paralelo a estes dois fatos a história da família vai se desmoronando naquele dia, com segredos vindo a tona, mortes e a gravação de um filme que tem como roteirista o personagem principal.

Ao longo de toda a história existe a presença de uma mulher misteriosa, que é quem manipula os acontecimentos daquele dia. Se conduz como juíza daquela família e vem cobrar uma dívida de honra antiga para com o protagonista.

Usando referências que vão de Ana Karenina (Arkáditch é o nome do irmão da personagem) às tragédias gregas, unindo o moderno e o clássico, Solha conduz uma história que fala sobre amargura com a maturidade de quem vive em paz com seus fantasmas, diferente de seu protagonista, que tem um armário cheio de esqueletos nos quais não quer mexer. Porém, como tudo no livro, mexer nestes esqueletos é inevitável.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O simples Adeildo Vieira


Amor de Farol
O amor que você deu
É seu, é seu, é seu
E a quem você o deu
Não importa se o usou
Não importa se o pisou
Não importa se o perdeu
Isso não é problema seu!
Imagina se o farol
Além de viver tão só
Fosse culpar sua luz
Pelo barco que passou sem perceber
Esse bem que lhe conduz
Alegria de farol
É tomar lições do sol
É viver de se entregar
Quanto mais sua luz se perde pelo mar
Mais luz ele tem pra dar

Faz um tempo que Adeildo Vieira tem se apresentado na minha setlist, e parece, ao que tudo indica, que este tempo vai se estender bastante. Dos compositores paraibanos contemporâneos que surgiram para mim desde que aportei por estas terras quentes é com ele que mais me identifico. Os outros são tão bons quanto (Chico César, Zé Ramalho, Livardo Alves, Sivuca), mas é com Adeildo Vieira que eu me sinto mais à vontade, pois fala do mesmo que eu, e de uma forma que eu falaria.
Adeildo, em sua obra, fala de amor, com profunda simplicidade, sem precisar buscar as paradoxalidades obtusas de Chico César, ou a transcendência mirabolante de Zé Ramalho. Sua musicalidade não chega aos pés de um Sivuca, verdade, mas, também, como chegaria, se ele é o maior, não é?
De fato, a música de Adeildo é tão interessante justamente por sua simplicidade de poesia musicada. Seu som desajeitado, de versos sem métrica e rimas falhas e sua cadência quebrada que dá um trabalho da peste acompanhar, mas é bonito que só.
Adeildo em sua simplicidade de criança falando de amor, cria versos de um poder tocante. "Amar demais até parece mal, mas nenhum outro mal me faz tão bem". "Ou se deixar contaminar por um sorriso de alegria de alguém que ainda enxerga a luz do dia" "Se o meu amor descer de rio abaixo, suas palavras boiarão no meu silêncio". Tudo simples, sem grandes elucubrações.
Partindo desta simplicidade Adeildo toca no coração, falando sempre do amor que sente dentro de si. Gosto de sua poesia pois é carregada deste sentimento da criança que vive uma fantasia, sabendo-a fantasia e acordando para a realidade quando a realidade lhe exige.
Profundo e simples, Adeildo Vieira consegue tocar dentro de nossos corações.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Amorério




Minha alma vestida em verdadeiro trauma
Cada ponto que eu traço é um beijo jogado em vão
Cada vôo mais alto, mais duro é provar o chão
Meu amor de viver é tão grande
É um desafio a toda a minha calma
Meu amor é grande, bem maior que eu
Amar, eu preciso amar tudo
Amar o que eu penso e o que não penso
E quem sabe até deixa sobrar amor pra mim também
Tanto amor disparado a todo instante
Quem bem sabe o bem de minh'arma se expões e ainda mostra o peito
E quem usa o arsenal de minh'alma por mim tem o maior respeito
Tanto amor amado à toa é minha Hiroshima sem saber aonde explodir
Explode em meu peito e os cacos de mim, se atirados ao Ponto Cem Réis
Que sejam restos de feira ou dados de Ibope no chão
Mas serão amor-primeira-página
Meu amor, se exposto em out-door gigante
Fatalmente será confundido com slogan de refrigerante
Se falado no rádio parece poema de poeta louco
Meu amor, se visto em filme, só será aplaudido na
morte do bandido
Se for bem sangrenta e arrancar do cinema
Aplausos e risos de quem consegue
Ter ódio nas veias e sangue na boca
E ninguém vai ver meu filme de amor
Amar demais até parece mal
Mas nenhum outro mal me faz tão bem!!!

Em algum lugar do mundo, neste exato momento, alguém está amando e sendo amado. Talvez não seja você. Ou talvez seja, não sei.
Mas você já amou e foi amada, ou amado. Ou acha que foi isso que te aconteceu com aquela pessoa que você considera especial até hoje. Você acha que aquilo que foi crescendo dentro do seu coração era amor, mas quando se decepcionou, achou que não, que não era amor, que pessoas que nos amam nunca vão nos decepcionar.
Engana-se.
As pessoas que nos amam são as que mais nos decepcionam. São as que mais machucamos e com quem mais dividimos desesperanças e desilusões.
O cinema te fez acreditar que amor "para sempre" é só aquele amor intransponível, de peito cheio e aberto para o mundo à sua frente. Amor que encara tudo sem se encolher, entra por todos os caminhos sem se desencontrar. Enfrenta todas as lutas sem perder.
O amor é um sentimento que vem de Deus, mas é executado por humanos e, por isso, é um sentimento tão falho quanto nós.
Amor sente frio, fome e medo.
Amor é incerto, seco e vazio.
Amor se deprime.
Mas ama. E continua amando, mesmo com tudo isso acontecendo à sua volta. Um amor de verdade ama demais, sem se perguntar se parece mal, pois sabe o quanto faz bem. Faz tão bem.
Só ama de verdade quem ama o imperfeito e quem se deixa explodir como uma Hiroshima pessoal, espalhando seu amor por onde for.
Amar é um desafio a toda calma, pois não existe amor em paz. Amor só o é em guerra, quando enfrenta a luta e ergue a cabeça dizendo "eu posso sair machucado, mas eu vou sair disso".
Não é amor quando você se rende, vira as costas e segue a vida, longe daquela pessoa, mesmo que você pense nela mais do que em todo o resto. Não. Não é amor se você não lutou.
O amor tem ódio nas veias e sangue na boca. O amor é a humanidade que Deus colocou em nós, e ele quer viver. Ele precisa viver. Não de forma narcísica, não. O amor não quer viver para ser admirado. Ele quer viver para que nossa humanidade, nossa parte mais divina, possa aflorar em nós.
E quem sabe aí sobre até um pouco de amor prá mim também.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Faço o que gosto e gosto do que faço

Não são todos que conseguem fazer o que gostam. Viver da arte que produzem, ou de um esporte, ou um trabalho regular, comum, mas que traz satisfação pessoal.

Na verdade, grande parte da humanidade acaba fazendo o que não gosta. Trabalhando pelo dinheiro, e não pela satisfação pessoal.

No entanto, existe ainda um terceiro grupo de pessoas que é formado por aqueles que aprendem a gostar do que fazem.

Estes, geralmente, começam em uma tarefa por necessidade e obrigação. Aprendem e crescem dentro de sua área e começam a encontrar satisfação para si naquilo que fazem.

Eles são criativos, inventivos e altamente adaptativos.  Conseguem se enxergar em qualquer situação e ver além do problema. Estas pessoas se realizam com aquilo que fazem, pois entendem que viver e aprender é que são as grandes realizações. Mais do que fazer o que gosta, descobrir que gosta de algo que está fazendo é importante para eles.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Amor à música





Você aprende a ouvir música quando consegue ouvir algo que foge do seu estilo normal e você acha bom. Aprende a crescer com a música quando vai procurar referências que são muito anteriores aos seus artistas preferidos. Quando encontra algo de qualidade dentro de um nicho onde nunca pensou que encontraria.

Meu caso é claro... Eu morei no interior de São Paulo e sempre achei música sertaneja o ó. Ruim com força. Meu estilo sempre foi outro. Eu, ainda criança, ouvia Toquinho e Vinícius, Tom, Chico Buarque (chegamos a pensar em montar um mini musical da Ópera do Malandro, isso quando eu tinha 10 anos de idade!!!), Gal, Bethânia e outras cositas...

Cresci e na adolescência, Chico era onipresente. Comecei a ouvir alguma coisa diferente um pouco depois. O Rock só entrou na minha vida aos 19, 20 anos. Antes disso, não, não havia espaço em meus ouvidos para esta barulheira elétrica.

Ouvindo rock eu descobri uma série de coisas boas, mas nunca deixei as antigas de lado. Encontrei Led Zeppelin, The Doors e Creedence Clearwater Revival e, mais recentemente, Beatles e Elvis.

De Jazz eu não falo, pois Jazz não é música, é religião, é ser tocado por Deus de um jeito muito próprio e singular. O mesmo vale para música clássica e contemporânea, que ouço desde criança, com o afinco e a disposição de um verdadeiro acólito.

Agora, o sertanejo... este eu tinha problemas para assimilar. O samba foi fácil. Paulinho da Viola, João Nogueira, Ataulfo, Noel, Billy Blanco, Cartola, etc, etc, etc... Mas o sertanejo...

Aí meu pai, que tocava violão lindamente, e resolveu parar porquê o violão quebrou, pegou emprestado um livro de serestas de um velho amigo, que invadia as noites tocando as mais belas músicas que já se ouviu. Este amigo já havia morrido quando este livro chegou às nossas mãos, mas meu pai, uma noite, na varanda da chácara em Itariri, pegou o violão, abriu o livro de capa verde e eu lembro, como se fosse hoje, que a primeira música que ele tocou foi Chico Mineiro.

Não é difícil que uma música me toque, mas a tristeza da história de Chico Mineiro e seu assassinato bárbaro em uma Festa do Divino no interior de Goiás foi no fundo do meu coração, lá onde existe a réstia da desolação e do vazio, lá onde habita, perdida, uma saudade que, por motivos que me fogem, eu não sinto.

Chico Mineiro é um clássico da música sertaneja verdadeira. De raiz. E desta eu procurei mais. Meu pai cantou outras naquela noite. Ipê Florido, Cabocla Tereza, Fio de Cabelo, tristeza do Jeca e tudo isso veio crescendo, crescendo e eu fui me alimentar desta nova fonte. Não procurei os novos (não gosto do sertanejo universitário, pouco se aproveita da onda sertaneja do início dos anos 90), mas na raiz, lá no fundo, na verdadeira música caipira.

Mas eu só descobri a verdadeira música sertaneja e toda sua criatividade e maravilha quando me vi aberto a ouvi-la. Se você não fizer o mesmo, não descobrirá a beleza da música à sua volta. E isso serve para tudo, ok?

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A Arte da Brutalidade

Quando passamos por uma cirurgia em que recebemos anestesia, o acordar após o sono é doloroso e chocante. Muitas vezes como se a dor tivesse nascido naquele momento em todo seu esplendor maldito, deixando-nos rendidos a ela, entregues a sua vontade soberana, chocados, absortos por sua força e forma.

Com a violência, hoje, não é assim. Não nos chocamos, pois não há mais dor. Ou, ainda, há dor, mas estamos anestesiados, como que ainda sob o efeito do entorpecente que nos deram. Um entorpecente que nos fecha os olhos para a dor verdadeira que corre por nossa espinha.

É contra esta anestesia que o multi-artista paraibano Solha escreve em sua "História Universal da Angústia", livro que ainda não li, mas cujo capítulo "A Gigantesca Morgue" tive a oportunidade de ouvir graças a Eli-Eri Moura e à Orquestra de Câmara de João Pessoa, da Funjope, em sua dissonante "Cantata Bruta".
Sobre a obra de Solha não tenho muito o que dizer, já que, infelizmente, não conheço com a profundidade com que gostaria, mas sobre a Cantata Bruta, sobre esta tenho muito o que falar. Sobre o assunto de que trata, então, um de meus assuntos preferidos, esta anestesia que temos diante da violência que chegou à sua banalização.

A obra do maestro Eli-Eri Moura e de alguns outros compositores paraibanos é contra Samukas Duartes e contra Jás. É contra cada vizinho indiferente, cada corpo estendido no chão e coberto com um jornal, é contra cada abandono e contra cada ato de violência.

A obra fala de casos específicos de violência que falam conosco. Em nosso íntimo, sabemos que é graças à nossa indiferença que esta violência se dissemina. É graças a nossos braços cruzados que homens como os que mataram Ahmed e Fernanda continuam estendendo suas mãos para o grotesco.

Grotesco, aliás, é o que o maestro usa para alcançar todo o potencial desta obra. Grotesca, impressionista, contemporânea. Estas são as palavras que melhor definem a obra, que mescla a orquestra com um coral, sons eletrônicos, atores e iluminação.

Mas ainda é na música que está o mais forte. A violência plástica que ela desenvolve chega aos píncaros da crueldade de um filme como "A Centopéia Humana", ou "Martyrs", por exemplo. Não se trata do que se vê, mas de como se ouve, e Eli-Eri sabe captar a sonoridade dos instrumentos e das palavras para fazer com que elas ganhem a conotação angustiante que merecem..

A angústia que Solha deve ter escrito em sua História Universal. A angústia que cada um de nós, humanos, sente diante da violência e de como esta violência chegou até nós. A violência que cada um de nós, como a senhora que tira do ouvido o aparelho de surdez, prefere não ouvir. A violência que a anestesia do mundo nos faz fingir que não conhecemos.



Serviço: Cantata Bruta - Sábado, 29/10 e Domingo, 30/10, 20h, Cine-teatro Bangüê, Espaço Cultural, Tambauzinho, João Pessoa. Entrada Gratuita.